Cansaço mental ao estudar idiomas tem causa, e quase nunca é o que você pensa

Cansaço mental ao estudar idiomas tem causa, e quase nunca é o que você pensa

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Juliana de Camargo

Especialista em Aprendizado de Idiomas

Você termina de estudar e sente que não sobrou nada. Às vezes isso acontece no meio da sessão mesmo, antes de você ter feito metade do que planejou. Você fecha o caderno, desliga o computador e passa o resto do dia funcionando no modo automático, sem energia para mais nada.

Eu já passei por isso várias vezes. Em alguns períodos estudava mais de três horas por dia de alemão e chegava num ponto em que parecia que alguém estava sugando minha vitalidade aos poucos. Eu não conseguia mais raciocinar, não tinha energia, não conseguia pensar nem em português, imagine em outra língua. O meu dia não era só estudar idiomas, eu precisava ter energia mental para trabalhar e para outras coisas também, e o cansaço mental ao estudar idiomas estava comendo tudo isso.

O que descobri depois de pesquisar e testar por muito tempo é que esse cansaço quase nunca vem do idioma. Ele vem do que está acontecendo no corpo, na rotina e no método, e cada uma dessas causas tem uma resposta específica.

A primeira causa pode ser uma deficiência de ferro

Isso foi o que eu descobri primeiro, e era a razão do meu cansaço fora do comum. Eu tinha deficiência de ferro. Meu ferro nunca estava em nível suficiente para eu ter qualidade de vida real, ficava sempre no limite, só para as funções vitais, e qualquer variação na alimentação ou na rotina já fazia o ferro baixar, porque não havia estoque nenhum.

Demorei para perceber que o ferro era o problema, porque eu tomava suplementação. Só que a dose era muito pequena e não estava sendo suficiente. Não estou incentivando suplementação aqui, e sim descrevendo a minha experiência. Você pega essa informação, vai ao médico, pede exames e estuda o suficiente para pelo menos saber fazer perguntas mais inteligentes ao profissional que te atende, porque o maior interessado na sua saúde é você mesmo.

Como a qualidade do sono afeta o aprendizado de idiomas

Às vezes você dorme as sete ou oito horas recomendadas, mas a qualidade do sono é péssima, e aí a quantidade não resolve nada. Sono não é só duração, é a proporção de sono profundo e de sono REM que você tem dentro dessas horas. Se essas fases estão comprometidas, você acorda cansado independentemente de quanto dormiu.

O sono profundo costuma falhar quando você não tem horário fixo para dormir, quando vai para a cama muito estressado ou quando sua casa tem muita luz branca. A cafeína é outro fator que provavelmente está comprometendo o seu sono se você é sensível a ela. Ela tem uma meia-vida que varia de pessoa para pessoa. Se você tomou café às sete da manhã e a sua meia-vida é de seis horas, às treze horas você ainda tem metade da cafeína no sangue. Se você ainda tomar café às três da tarde, dificilmente vai eliminar isso até a hora de dormir. Se você leva os seus estudos a sério, precisa proteger o sono e tratar isso como prioridade máxima.

Dormir bem de verdade hoje é quase um ato de resistência, porque a maioria das pessoas dormem mal, acordam se sentindo horrível e atribuem a qualquer outra coisa, fora o óbvio.

Estudar sem método gera duplo desgaste

Quando eu ainda não sabia o que estava fazendo, estudava de acordo com o que eu sentia no momento. Era no modo aleatório, via uma dica aqui, uma dica ali, fazia um frankenstein dessas informações e tentava aplicar. Todo dia eu acordava sem saber o que ia fazer naquela sessão. Esse processo de decisão por si só já consumia energia antes do estudo começar de verdade.

E além disso, existem formas de estudar que são muito inefetivas e demandam energia desproporcional ao resultado. Eu aplicava exatamente essas. Um exemplo concreto é o que eu fazia quando estudava alemão: eu escrevia flashcards com frases muito longas. Depois de criar umas quinze palavras novas, eu estava exausta. Eu não estava ajudando o processo com o método que aplicava.

Não é disciplina o que falta quando isso acontece. É método. Quando você tem um passo a passo em que confia e que gera resultado visível, você para de gastar energia no processo de decisão diária e também para de gastar energia na frustração de não evoluir, que é um dreno silencioso enorme. Ter método restaura vitalidade porque elimina dois tipos de desgaste ao mesmo tempo, e o esgotamento mental ao estudar uma língua estrangeira diminui de forma visível quando essa estrutura existe.

O que fazer durante o estudo para não terminar destruído

Você colocou a bundinha na cadeira para estudar. A primeira coisa a considerar é a estrutura da sessão em si.

Eu uso uma versão adaptada da técnica pomodoro. Não gosto dos vinte e cinco minutos de estudo com cinco minutos de pausa, porque normalmente levo uns quinze minutos para pegar ritmo na atividade e não quero parar logo depois. O que faço são blocos de quarenta a cinquenta minutos com pausa de dez minutos. Depois de cinquenta minutos já começo a sentir fadiga e preciso da pausa. Dez minutos é o tempo certo para mim.

Mesmo que se sinta bem depois de cinquenta minutos, vale testar as pausas, porque provavelmente é exatamente esse intervalo que vai fazer com que, no final do ciclo, você não esteja destruído.

A pausa precisa ser chata. Se você entra nas redes sociais durante a pausa, se assiste um vídeo, se abre um aplicativo de notícias, você está tornando a volta ao estudo mais difícil, porque o cérebro acaba de processar informação nova enquanto deveria estar descansando. Estudar é cognitivamente exigente, e se você está estudando direito, a pausa precisa ser menos interessante do que o estudo, não mais.

O celular precisa ficar fora do alcance físico e visual durante o estudo, e fora dos aplicativos durante a pausa. Você pode usá-lo para colocar uma música ou ligar um timer, nada mais. Nenhum WhatsApp, nenhum feed de rede social, nenhum aplicativo de notícia.

O que você faz nessa pausa? Vai ao banheiro, faz um chá, pega uma água, lava um copo que está na pia, olha pela janela, vai ver o seu gato. Você precisa de um leve tédio. Quando você sente isso, provavelmente vai querer voltar a estudar, porque o estudo vira a parte interessante do ciclo. Por isso o cuidado com o celular precisa ser ativo, pois o comportamento automático de abrir aplicativo entra sem você perceber, e você pensa “vou só dar uma olhadinha”.

Os meus dias de maior foco foram quando simplesmente não peguei no celular durante nenhuma sessão e nenhuma pausa.

O que muda quando você resolve essas causas

Quanto tempo estudar idiomas por dia sem se esgotar não é uma pergunta que tem resposta universal, porque depende de quantas dessas causas estão ativas no seu caso. Com ferro adequado, sono restaurador, método definido e estrutura de sessão com pausas reais, dois blocos de quarenta e cinco minutos por dia entregam muito mais resultado do que três horas de estudo no modo aleatório com o corpo comprometido.

O efeito observável é simples: você termina a sessão e ainda consegue pensar. Você ainda tem presença de espírito para trabalhar, para conversar com alguém, para fazer outras coisas que importam. O estudo de idiomas para de ser o evento que destrói o resto do seu dia.

E tem um efeito secundário que eu não esperava: quando você termina com energia positiva, você tem vontade de estudar no dia seguinte. O ciclo inverte. A consistência, que sempre pareceu um problema de disciplina, vira uma consequência natural de uma estrutura que não te esgota.

Como resolver o cansaço mental ao estudar idiomas: diagnóstico em camadas

Faça um diagnóstico em camadas. Não tente resolver tudo de uma vez.

Primeiro, avalie o sono. Você tem horário fixo para dormir? Você dorme em ambiente com luz branca? Você toma café depois do meio-dia? Se alguma dessas respostas for sim, comece por aí, porque sono comprometido afeta tudo o mais. Pesquise sobre higiene do sono.

Segundo, se você tem cansaço fora do comum, especialmente se é mulher, vá ao médico investigar possíveis causas que poderiam ser facilmente resolvidas.

Terceiro, observe sua próxima sessão de estudo. Você sabe exatamente o que vai fazer antes de começar? Se a resposta for não, o desgaste começa antes do estudo em si.

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