Por que você não entende inglês falado mesmo depois de anos estudando

Por que você não entende inglês falado mesmo depois de anos estudando

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Juliana de Camargo

Especialista em Aprendizado de Idiomas

 

Você estuda inglês há anos, consegue ler um texto razoavelmente bem, entende o que lê, mas quando um nativo abre a boca, parece que estão falando algo alienígena. Filmes sem legenda viram uma experiência de frustração, séries viram adivinhação pela paisagem e pela expressão dos atores. E a sensação que fica é de que existe algum defeito no seu ouvido, ou que você simplesmente não tem o tipo certo de memória para isso.

Essa é a dor de quem não consegue entender inglês falado e ela é muito mais comum do que parece.

O mito da imersão passiva

Existe uma crença muito difundida no universo de aprendizado de idiomas de que basta assistir muitos filmes e séries para chegar no ponto em que você entende tudo sem legenda. Essa crença parece razoável porque soa como “exposição ao idioma”, mas ela ignora um detalhe fundamental.

Não é a exposição em si que desenvolve a compreensão auditiva, é o que você já desenvolveu antes que determina se aquela exposição vai funcionar ou não.

Não é assistindo filmes e séries que você vai desenvolver a compreensão necessária para dispensar a legenda. A compreensão auditiva no nível suficiente para isso é o que te permite tirar a legenda, não o contrário.

Você não precisa morar fora para desenvolver compreensão auditiva. O que você precisa é de estudo estruturado, e isso pode ser feito de onde você está.

Por que você entende inglês escrito mas não o falado

Existe uma razão concreta para o inglês dos filmes parecer mais rápido e difícil do que o inglês que você aprendeu. Quando você lê, controla a velocidade. Pode parar, reler, processar no seu ritmo. Quando você ouve, o inglês acontece na velocidade do falante, e você precisa reconhecer as palavras em tempo real para acompanhar o raciocínio. Se o reconhecimento não está automatizado na velocidade necessária, você perde o fio da meada.

Além disso, nativos modificam a língua para falar mais rápido. Juntam sons, fazem reduções, encurtam sílabas, e esse inglês “colado e acelerado” é muito diferente do inglês escrito que você aprendeu.

Os quatro componentes que precisam estar desenvolvidos

Vocabulário suficiente para o conteúdo de nativos

O primeiro componente é vocabulário, e o tamanho necessário costuma ser muito subestimado.

Um artigo científico que analisou 318 filmes de diferentes gêneros verificou qual é o volume de vocabulário necessário para compreender o que é falado nesses filmes. A conclusão aponta que, somente em termos de vocabulário, você precisa conhecer no mínimo 3.000 famílias de palavras, idealmente 5.000, o que equivale aproximadamente ao nível B2.

Esse dado tem implicações práticas importantes. Filmes e séries são conteúdo feito para nativos, não para aprendizes, e a densidade de vocabulário reflete isso. Algo interessante desse mesmo estudo é que a dificuldade varia de acordo com o gênero:

  • Filmes de drama e terror exigem vocabulário menor para compreensão
  • Filmes de animação e de guerra são os mais difíceis (WEBB; MACALISTER; 2013)

Isso vai contra a intuição de quem acha que animações infantis são mais fáceis para adultos. Conteúdo projetado para ser fácil para uma criança nativa não é necessariamente fácil para um adulto aprendendo a língua.

Pronúncia estudada de forma intencional

O segundo componente é o que mais surpreende quem quer entender inglês falado por nativos e é o que explica por que você provavelmente não consegue segmentar as palavras quando ouve inglês em velocidade real.

Em português, você segmenta automaticamente. Mesmo quando alguém fala rápido, seu cérebro reconhece onde começa e onde termina cada palavra, porque está treinado para os padrões sonoros do português. Em inglês, esse treino não acontece automaticamente, ele precisa ser construído de forma intencional.

Estudar pronúncia de forma intencional é o mecanismo pelo qual você passa a reconhecer os sons existentes naquela língua, para de ser “surdo” para eles e começa a perceber quando aparecem na fala em velocidade natural. É como tirar tampões dos ouvidos que você nem sabia que estava usando.

Além dos sons individuais, você também precisa estudar como nativos modificam o idioma para falar com mais velocidade, as junções de sons e as reduções que existem no inglês. Sem esse conhecimento explícito, vai ser muito difícil entender inglês falado por nativos em contexto real, porque o que você vai ouvir não vai corresponder ao inglês que você memorizou na leitura.

O YouTube tem bastante conteúdo sobre reduções e ligações fonéticas em inglês, vale uma boa maratonada nesses materiais.

Tempo de escuta acumulado com compreensão real

O quarto componente é o tempo de escuta e aqui é importante fazer uma distinção. Essa é a diferença entre o que se chama de listening ativo, que é escuta com compreensão real, e listening passivo, que acumula horas sem construir a habilidade.

A escuta que desenvolve a habilidade é aquela em que você consegue acompanhar o que está acontecendo. Se você ouve por horas achando que as coisas vão entrar por algum milagre, sem entender nada do que está sendo dito, esse tempo não está construindo compreensão, está só acumulando horas.

Com a base de vocabulário, gramática e pronúncia já em desenvolvimento, o tempo de escuta serve para que seu cérebro se familiarize com a língua acontecendo na velocidade real. É nesse ponto que tudo começa a se conectar.

Isso também inclui se familiarizar com sotaques diferentes, pois não existe só o inglês americano padrão e o britânico padrão. Dentro dos Estados Unidos há muitos sotaques distintos, dentro da Inglaterra também, e há falantes não nativos usando o idioma com os seus próprios sotaques. Quanto mais variação você ouvir, mais robusta fica a sua compreensão.

Legendas são aliadas, não obstáculos

A legenda não é um problema a ser eliminado o quanto antes, mas sim uma ferramenta de aprendizado que você usa de acordo com o seu nível atual.

Se você está em nível iniciante e ainda entende muito pouco, colocar a legenda em português com o áudio em inglês é uma opção válida. Você garante a compreensão do conteúdo sem perder o contato com o idioma que está aprendendo, o que é muito diferente de assistir dublado em português, que não oferece nenhum benefício para o aprendizado.

Se você já tem alguma base no idioma, pode experimentar a legenda em inglês com o áudio em inglês. Esse tipo de legenda ajuda a associar o som que você está ouvindo com a escrita, e é especialmente útil para identificar discrepâncias entre o som que você memorizou de uma palavra e como ela é pronunciada de verdade. Quando você percebe essa diferença, corrija o som que está guardado na memória, porque se não corrigir, na próxima vez que ouvir aquela palavra sem legenda não vai reconhecê-la.

A situação em que você não precisa de legenda é uma consequência de muito estudo, vocabulário expandido, pronúncia trabalhada, gramática estudada e um volume grande de escuta acumulada. Como saber se você já está pronto para tirar a legenda?

Uma forma de treinar o ouvido de forma consciente é usar o próprio filme como diagnóstico. Escolha um filme ou série de tema geral do cotidiano, nada com vocabulário muito específico de uma área técnica. Assista 10 minutos com legenda, depois tire a legenda e assista mais 10 minutos sem ela.

Avalie sua compreensão. Se você conseguiu acompanhar a história, entender o que foi falado de forma geral e seria capaz de explicar para outra pessoa a ideia central e alguns detalhes, você está pronto. O objetivo não é entender todas as palavras, é conseguir acompanhar o que está acontecendo com uma compreensão em torno de 80%, 90%, 95%.

Se a compreensão caiu muito, se você não saberia dizer para outra pessoa qual é a ideia central do que foi falado, você ainda precisa da legenda, e tudo bem. Recupera a legenda. Não é o momento de se livrar dela, e esse não é um sinal de fracasso.

Nativos também não escutam todas as palavras. Quando ouvimos a nossa própria língua e perdemos uma palavra aqui ou ali, preenchemos esses espaços com o conhecimento que temos sobre o contexto e sobre o que esperamos que seja falado naquela situação. Num restaurante movimentado, quando o garçom vem falar com você e você não escuta claramente o que ele disse, provavelmente vai conseguir responder de forma adequada porque sabe o script daquele momento. Esse mesmo mecanismo funciona em qualquer língua, mas ele exige que a base esteja construída para sustentar esse processamento.

Webb, S. and Macalister, J. (2013), Is Text Written for Children Useful for L2 Extensive Reading?. TESOL Q, 47: 300-322. https://doi.org/10.1002/tesq.70

 

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